Celebridade dos “com camisa”*Um helicóptero deveria chegar em poucos minutos. Todos olhavam para o céu. As crianças, filhas de pais despreocupados, subiam nos muros para ficar no lugar mais alto. Com bandeiras amarelas e azuis em punho, aguardavam como os outros. Para eles, alguém importante estava para chegar.
O campo de futebol estava sem time, sem jogo algum. Mesmo assim, a arquibancada estava cheia. Como um grupo de torcedores fanáticos de um único time, cuja partida havia atrasado, ninguém arredava o pé do local.
O sábado estava quente. Suava, pois havia escolhido a roupa no inicio da manhã.
Enquanto esperava, compartilhava a expectativa da multidão. Calmo e quase silencioso, o público olhava para o céu. O homem que sempre veste amarelo em grandes ocasiões despenteava o cabelo bem arrumado enquanto fazia inúmeras ligações. Nervoso, porém feliz. Este homem sabia o que a chegada do helicóptero significava. Uma celebridade traria mais votos para o colega de partido que amargava o segundo lugar na escolha dos eleitores da região. Ele e outros quatro políticos, uns recém eleitos, sentiam o calor do mormaço e, bem-humorados, faziam piadas de ocasião.
Um pequeno burburinho apostava: acabaram de sair da outra cidade. Outro calculava: devem estar aqui em meia-hora.
A meia-hora se arrastou em 50 minutos de espera, mas ninguém saiu de lá. Qualquer ruído de motor causava alegria, mas era apenas um caminhão que estacionava a poucos metros dali.
O atraso mudou o protocolo. Maquinavam como a estrela, que não era vermelha, chegaria ao local do comício. Se fosse num carro fechado, seria uma decepção para os admiradores, cochichavam. Enquanto decidiam, um pequeno ponto surgia no céu. O helicóptero gerou um vento forte. Não senti medo Como os outros, corri para perto da máquina. Mal as hélices pararam, os abraços entre os passageiros da nave e os colegas de coligação apareceram. Até mesmo quem não o apoiava sorria alegremente – flagrantes das fotografias tiradas no dia - a euforia tomara conta de todos.
A arquibancada, antes calma, gritava e chamava. Todos queriam ver a celebridade de perto. Autógrafos, fotos, beijos em filhos, sorrisos, crianças sendo jogadas no seu colo. Todos queriam um pouco da estrela.
A carreata seguiu. A celebridade preferiu ir de carro, mas aberto. Como um coringa, deixava os lábios em formato de U esticado, algo próximo de um sorriso, como o esboçado nos programas de TV. Em poucos minutos, o veículo chegava perto do palanque improvisado. Outra centena de pessoas o aguardam lá, fato que me surpreendeu ainda mais. Um pequeno discurso lá estava a estrela voltando para o seu helicóptero.
Tudo isso aconteceu num pequeno espaço de tempo, no máximo meia-hora, porém é algo pra se lembrar por uma vida. A pacata cidade dos “com camisa, comida e boa renda” recebia sua celebridade. Para mim, foi a primeira cobertura de uma carreata de um político nacional e também a primeira vez que vi um helicóptero de perto.
*Demorou, mas finalmente escrevi.